Barriga de tanquinho

por | 13 agosto 2015 | 21 Comentários

Enfermeira obstétrica, Psicóloga e YouTuber. Madura, vivendo o feminino pleno, o tempo do carvalho. Com netos que provocam o impulso de amadurecimento e atualização continua. Amo os livros. Amo as cores. Amo as artes. Adoro viajar. Aprender e ensinar é minha paixão. Sou profundamente inspirada no universo das boas conversas.

 

poderosa guerreira

Talvez tu já tenhas visto a imagem acima na rede social ou na minha página do Facebook. No domingo passado a apresentei como um reflexo bem próximo de como eu me sentia naquele momento. Tudo nela me leva  a pensar em vida plena: peito aberto, cabeça pro alto, escuta atenta, e o abdome como um centro de força onde o processo da vida se desenrola.

Agora me permite um aparte pra chegar na reflexão que tem a ver com o título que dei a esta postagem. Dia destes folheava uma revista de amenidades-celebridades. Admirando as cores, a beleza, lindos cenários cheguei numa das páginas em que uma linda mulher, pros padrões de beleza vigentes entre nós, de seus cinquenta e poucos anos apresentava e se vangloriava da sua “barriga de tanquinho”. Um abdome malhado, firme, cheio de gomos. Nenhuma flacidez aparente, nenhuma estria apesar de na história se contar de filhos. Confesso que torci pra que não fosse de verdade e houvesse manipulação digital com um bom trabalho de Photoshop, rs. Num primeiro momento.

Claro, quase no mesmo minuto não pude deixar de pensar na minha e na de algumas mulheres da minha idade que conheço e usam academia pra trabalhar o corpo com o fim de manter equilíbrio, saúde e bem-estar geral. Focadas em saúde integral.

Ah, possivelmente perguntas, há comparação? Qual? Não fujo da saia justa e te respondo sobre minha barriga. Ela também se apresenta cheia de gomos, rs. De outra natureza. Por ter estado a serviço da vida, no ato de se deixar preencher e gestar quatro crianças que chamo de filhos. Acolhi no meu ventre almas que são singulares e importantes pro “projeto” de Deus pro mundo. Acolhi no meu ventre seres semente que já trazem um código de crescimento e desenvolvimento. Como integrante de uma sociedade acolhi no meu ventre quatro cidadãos que interferem e criam a cada passo a sociedade na qual vivemos e podem transformá-la na sociedade com a qual sonhamos. Uma benção essas múltiplas e irrepetíveis experiências! provocar o tanquinho de músculos tesos como se nada houvesse habitado ali? Minha escolha foi e é outra pelo respeito à barriga que no mínimo dobrou de circunferência várias vezes e conta histórias cheias de significado pra mim. Um ventre macio tem seus encantos. Nele a respiração chega e se faz plenamente em mim. E um amor na figura de alguém, sabe beijá-lo, repousar sua cabeça, ganhar cafuné e saber que tá tudo certo e é perfeito. Mesmo estando aparentemente “imperfeito”. Te revelei uma escolha pessoal. 

Junto a esta compreensão que desenvolvi até aqui trago outras reflexões que vieram da conversa com outra pessoa:

Pode-se inferir uma oposição entre a valorização de um padrão estético em detrimento do valor feminino, materno, social, significativo e consciente. O primeiro modelo, o estético, é forte no mundo ocidental. Sei que  pode-se lidar sem condenação a quem fez a escolha estética. Em respeito a cada um e a seu direito de decidir o que é melhor pra si. Assim barriga de tanquinho não é menos. Alguém que escolhe definir a musculatura abdominal certamente tem histórias cheias de significado. E fazendo um exercício de livre pensar: talvez ela não possa ter filhos. Talvez ela tenha escolhido uma contribuição que tenha lhe dificultado a maternidade. Talvez o consolo seja enaltecer o que ficou de bom de não ter a maternidade (que ela até poderia querer). Talvez até tenha tido filhos e tenha também conseguido tornar a barriga esse tanquinho com um tempo diário dedicado a isso, talvez ela tenha muita disciplina, talvez tenha trocado uma hora de leitura de livros pela academia. Desconheço a realidade desta mulher….
 
Torço pra que ela tenha conseguido também ler um bom livro, ou  comer uma boa torta de chocolate, rs, ou  viajar sem ficar frequentando academias todo dia toda hora em Paris, Amsterdam, Barcelona… Porque a vida é mais do que um tanque, que também é bonito. Bom, talvez eu não curta o tanque, mas tem gente que curte, e eu respeito. No momento talvez o tanque seja um símbolo de uma corrida estética. Talvez ela sofra em algum nível um sofrimento que precise também ser compreendido e endereçado. Talvez as implicações cotidianas desse tanquinho seja o sofrimento de homens que,  junto delas, estão se tornando obcecados por esse padrão estético, e perdendo o valor da maternidade, da feminilidade, da família, e de tanta coisa… Talvez da realidade. Poderia dizer que torço para que o tanque também esteja acompanhado de uma família, de amigos e do convívio além-da-estética; que a vida dela seja maior que o tanque aos 50 e poucos anos. Mas, e se não for? Cada um que responda por si e suas escolhas.
 
À todas as barrigas,
À todas as mulheres
À nenhuma neurose,
À nenhum preconceito,
À nenhuma escravidão,
À nós como humanidade,