escrito à mão – lápis, borracha e caneta no século 21?

por | 27 agosto 2015 | 14 Comentários

Enfermeira obstétrica, Psicóloga e YouTuber. Madura, vivendo o feminino pleno, o tempo do carvalho. Com netos que provocam o impulso de amadurecimento e atualização continua. Amo os livros. Amo as cores. Amo as artes. Adoro viajar. Aprender e ensinar é minha paixão. Sou profundamente inspirada no universo das boas conversas.

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Vi essa imagem e associei ao que vou te contar. Dia desses estava trabalhando com uma pessoa num projeto importante usando o computador. Quer dizer, ele usava porque, eu, a duras penas, tentava me entender com a máquina. Meu caderno e meu lápis, a postos ao meu lado, eram depositário e veículo de tudo que tinha pra lhe perguntar e das preciosas dicas que ele me dava. Em algum momento e por algum motivo que me foge agora, ele pegou meu lápis e disse: “não se usa mais isso”. Hã? rs. Como não? Eu uso! E muito! Ele nem se deu conta, jovem que é e versado no universo digital, que, aos meus ouvidos, disse uma heresia. (Sei que isto não é sua convicção e, como numa foto, é o retrato de um momento. Na força de expressão. Mantenho o fato contado assim  porque isto me despertou pra vontade de escrever o que te digo abaixo).

E… porque é mesmo que eu ainda uso lápis, borracha e caneta?

Eu uso porque domino com destreza o deslizar do lápis escrita grossa, gosto de marcar as idéias e palavras, pela folha. Na dança em que ideias e mãos coreografam, numa coreografia ensaiada por mais de 6 décadas,  com leveza e destreza, a escrita.

Eu uso porque desde os 7 anos lápis, borracha, caneta e caderno são meus companheiros. Estão vívidos em mim os exercícios de contornar as primeiras letras com cuidado para dar uma bela forma às vogais e consoantes. Hoje, garranchos à parte, a letra é razoavelmente compreensível.

Eu uso porque com eles escrevi minhas primeiras cartas de amor e as reescrevi infinitas vezes. Porque, sabemos, nem de longe as palavras correspondem ao que vive um coração apaixonado. Eram declarações inocentes e ingênuas  pra meninos que nunca souberam desta paixão, rs.

Eu uso porque os lápis  me possibilitaram aos 13 anos escrever postais e cartas com mais de 11 páginas, filosofando sobre a vida, rs, para pessoas do Brasil inteiro cujos endereços estavam numa sessão de correspondência de revistas da década de 60. Lembras disto? Também tiveste a maravilhosa experiência de postar e esperar a resposta, infinitamente longa, rs, pelo correio, trazendo lugares incríveis de todo o Brasil na forma de coloridos postais?

Eu uso porque a conexão mente-mão-lápis-caneta me traz pra mim.

Eu uso porque é o que está pela minha casa inteira. Ao lado da cama para anotar os sonhos; Ao lado do telefone (ainda uso o fixo também,rs) para os recados; ao lado do computador(!) para não deixar escapar algo a fazer no dia e o que surge do “nada” enquanto digito. Meu filho me diz: agenda em celular também existe, sabia? rs

Tenho alguns preciosos lápis de diferentes partes do mundo, porque os encontrei em viagens que são pra mim experiências tão criativas quanto escrever e porque com eles “viajo”. Além de que sempre estiveram entre meus dedos pra me lembrar que está nas minhas mãos escrever e reescrever a vida no poder da imaginação até alinhar com o que o divino tem pra mim. Um dos últimos veio da França com assinatura de Joana D’Arc, ícone da escuta profunda, da entrega, da ousadia e da coragem. Há também aquele com a assinatura de Cora Coralina, a sábia anciã e poetisa goiana. Poesia sempre alimentou minha alma. E os textos antigos manuscritos tem sua magia e encantamento… a letra torna pra mim tudo muito mais pessoal, genuíno e autoral. Leio o autor nela.

O lápis e seu significado está ligado a tantos momentos mágicos.

Um bilhete manuscrito e ilustrado no bolso de um paletó ou blazer…embaixo da xícara pela manhã… dentro da fronha no travesseiro…”esconderijos” do cuidado e do amor declarado.

O que  me dizes, por exemplo, do prazer de apontar o grafite até conseguir o tamanho e espessura desejados?

Meu avó materno, Germano, apontava lápis com um canivete. E a elegância de formas que conseguia nenhum apontador chega perto de conseguir. Ele os mantinha na sua mesa de cabeceira e lembro ainda hoje da curiosidade e felicidade da minha menina, que nem alfabetizada estava, com suas histórias e aquele lápis amarelo.

Por fim tenho consciência de que uso lápis e caneta porque na zona de conforto as coisas são feitas sem esforço. Só que, sei bem, a vida pede mudança e adaptação a novas realidades porque ela É movimento. Usar o celular pra tudo isso? Claro! Chego lá, e com a facilidade com o qual meu neto de 3 anos já o usa, rs. Esse é o desafio.

Aqui-agora, novos tempos, é hora de aos poucos como se fez com a caneta tinteiro eu ir fazendo substituições e usando as  teclas com a mesma desenvoltura. Sem nunca deixá-los nem às histórias que criaram de lado, por certo.
Ao mesmo tempo mantenho apontados e em uso os lápis de cor pra manter a vida… colorida.