Mulheres e tranças – terapia para a tristeza

por | 1 setembro 2015 | 14 Comentários

Enfermeira obstétrica, Psicóloga e YouTuber. Madura, vivendo o feminino pleno, o tempo do carvalho. Com netos que provocam o impulso de amadurecimento e atualização continua. Amo os livros. Amo as cores. Amo as artes. Adoro viajar. Aprender e ensinar é minha paixão. Sou profundamente inspirada no universo das boas conversas.

história de trançar as tristezas...

A minha avó dizia-me que quando uma mulher se sentisse triste, o melhor que podia fazer era entrançar o seu cabelo; de modo que a dor ficasse presa no cabelo e não pudesse atingir o resto do corpo. Havia que ter cuidado para que a tristeza não entrasse nos olhos, porque iria fazer com que chorassem, também não era bom deixar entrar a tristeza nos nossos lábios porque iria forçá-los a dizer coisas que não eram verdadeiras, que também não se metesse nas mãos porque se pode deixar tostar demais o café ou queimar a massa. Porque a tristeza gosta do sabor amargo.

Quando te sintas triste menina- dizia a minha avó- entrança o cabelo, prende a dor na madeixa e deixa escapar o cabelo solto quando o vento do norte sopre com força. O nosso cabelo é uma rede capaz de apanhar tudo, é forte como as raízes do cipreste e suave como a espuma do atole.

Que não te apanhe desprevenida a melancolia minha neta, ainda que tenhas o coração despedaçado ou os ossos frios com alguma ausência. Não deixes que a tristeza entre em ti com o teu cabelo solto, porque ela irá fluir em cascata através dos canais que a lua traçou no teu corpo. Trança a tua tristeza, dizia. Trança sempre a tua tristeza.

E na manhã ao acordar com o canto do pássaro, ele encontrará a tristeza pálida e desvanecida entre o trançar dos teus cabelos…

Registo da antropóloga Paola Klug, Fotografia tirada na Nicarágua por Candelaria Rivera, do ensaio fotográfico: “Amor de Campo” (via Rui Sá)

Esta história que eu compartilho contigo me soa cheia de poesia, ternura e sabedoria.

Apazigua-se o coração com a aceitação e negociação com a “sombra” da tristeza e da melancolia.

Sabemos que é um bom caminho também deixar que as lágrimas que brotam no espaço interno mais profundo cheguem aos olhos e que possamos através delas extravasar o que nos vai no interior. Mas que seja… entrançar a dor da tristeza nos cabelos é imagem cheia de beleza. E de recursos de pacificação.

Enxergo uma avó  que, na escola da vida, aprendeu a responsabilizar-se pelo que sente e a lidar com isso sem responsabilizar as circunstâncias, pessoas, eventos fora de si. E que honra seu papel de educar emocionalmente as gerações mais novas.

Celebro a existência de mulheres maduras que não lutam mais contra o que a natureza e o movimento da vida traz. E que encontram em si meios para lidar.  Tristeza e tranças uma curiosa parceria!