Peitos e bundas – um olhar sobre os padrões-parte 2

por | 18 agosto 2015 | 10 Comentários

Enfermeira obstétrica, Psicóloga e YouTuber. Madura, vivendo o feminino pleno, o tempo do carvalho. Com netos que provocam o impulso de amadurecimento e atualização continua. Amo os livros. Amo as cores. Amo as artes. Adoro viajar. Aprender e ensinar é minha paixão. Sou profundamente inspirada no universo das boas conversas.

Me empolguei! Acabei de falar de uma contenção de protuberância, publicando o post  “Barriga de tanquinho” então vou complementar  comentando sobre duas protuberâncias: peitos e bundas, rs.

Na natureza as protuberâncias embelezam trazendo diversidade e novos e surpreendentes contornos à paisagem. Os morros e as montanhas, e nelas os vulcões, são bons exemplos disto. A mim parece que são belos também porque no conjunto da cena natural se revelam diferentes. Convidam a um desafio de exploração que se aceito pela pessoa, permite que ela reconheça qualidades, talentos e limitações do momento em que vive, e no qual o desafio foi aceito. Espiritualmente, relevos como montanhas representam uma caminhada ao encontro da verdadeira essência e a possibilidade de ascensão espiritual. Alguém pensou em mexer, ou se movimenta pra tal, no tamanho de uma montanha para torná-la esteticamente mais bela?

Não é isto que andamos fazendo, mantidas as proporções, na manipulação com silicone em peitos e bundas? Claro, não só neles, há as panturrilhas, o peitoral masculino a “turbinar” também… Nossa loucura perseguindo uma beleza “perfeita” esteticamente modelada a partir de fora, pra atender modelos pré-fixados, não tem limites.

De novo sei que entro num terreno “minado” em que várias possibilidades precisam ser consideradas. E, pensando nas possíveis razões, são quase  tantas quantas são as pessoas que decidem pela cirurgia. Entendeste, certamente, que não me refiro ao uso de silicone em cirurgias reparadoras como, p. ex, em mulheres que passaram por retirada de mamas por câncer. No caso e em outros de reparação, que bela descoberta o silicone! Que bendito procedimento! Quanta gratidão posso expressar à ciência a serviço da vida.

Qual o sentido de empinar seios e “derrières” com volume “normal” dobrando-lhes o volume às vezes? Tornando-os o ponto focal, o primeiro pro qual se olha ao entrar em contato com a pessoa? Fazendo com que ela, como SER, perca em presença. E, incrível contradição , talvez seja isso o que sua alma pede: pra ser vista, admirada e amada.

Em cada história de vida, por certo, vamos encontrar o sentido profundo da escolha. E há que respeitá-lo. Ainda que respeite as histórias individuais sigo perguntando: pra que alguém se submete propositadamente a risco anestésico, risco de infecção, risco de o resultado ser bem frustrante…? Algumas mulheres já me responderam: “pra ficar bonita; pra elevar minha auto-estima”.

Vocês sabem, enriquece ter a opinião de um homem nesta elaboração e disponho da de um amigo do blog. Numa despretensiosa reflexão adicional ele contribui com elementos muito importantes: “eu pensaria também nos silicones de mulheres que não colocam 500ml, mas as que colocam 150ml, aquelas que podem estar envergonhadas por não terem curva alguma. Elas não querem chamar a atenção para seus peitos grandes, elas querem tirar a atenção da ausência deles. Claro que elas também estariam funcionando pelos mesmos mandamentos da estética contemporânea neurótica, mas acho que talvez não somente por ela, mas no meio do caminho entre esses mandamentos e um tratamento médico psicológico de emergência. Elas se sentem desvalorizadas, talvez desprezadas, pelo padrão de peitos salientes. Podemos partir do ponto em que talvez elas não devessem se importar com o padrão, que deveriam transcendê-lo e abandonar essa necessidade, mas a realidade não é simples assim. Precisamos todos de contato, de integração, de pertencimento, e nem todos conseguem ter força e maturidade para chegar nesse estágio de imediato. Talvez essas mulheres sintam essa necessidade de ajuste estético desde a adolescência, e seus estados afetivos íntimos podem estar estagnados desde então. Aí vão pro risco da anestesia cirúrgica, para evitar o risco de anestesia social. Isso aponta para o mesmo problema dos tanquinhos: opera-se pelos padrões, e sentem-no como o índice de valor próprio. Os homens, ao operarem pelos mesmos padrões, induzem as mulheres a esses estados delicados. Mas isso tudo que lembro ainda está num nível limitado de discussão, porque isso mexe com instintos masculinos e femininos que são difíceis de resolver apenas no âmbito da compreensão intelectual: olhar uma fêmea e atrair um macho são programas inseridos no código humano há muitos milhares de anos. E de repente, em apenas uma geração, temos uma explosão de comunicação e mídia de imagens do corpo humano, uma Internet espalhando e padronizando os valores, lingeries e photoshops acentuando as obsessões, e as cirurgias como uma das respostas. É um cenário de velocidade, que oferece respostas rápidas, e que carece das respostas essenciais”.

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(foto: Reprodução / Mirror – link)

Preciso, por conta das respostas que mulheres dão relativa a elevar auto estima, contar-lhes uma história que vivi. Estava dando uma entrevista na TV, num canal local, num programa de variedades à tarde. Éramos três as entrevistadas: a coordenadora de um evento estadual de artesanato, uma moça que estava inaugurando uma loja de lingeries no Shopping, e eu. No desenrolar da entrevista com a empresária da franquia de lingeries  ela mostra belas camisolas, calcinhas, soutiens… Em dado momento declarou que usar peças daquelas “eleva a auto-estima de qualquer mulher”. Entendemos o que ela quer dizer… nos sentimos bonitas… atraentes… também é comum que repitamos isto. Em seguida se virou pra mim querendo aquiescência. Respirei fundo… rs, penso instantaneamente “digo ou não digo”? e imaginas, suponho, o que respondi. Porque não precisa ser psicóloga como eu pra saber que se nossa estima estiver na dependência das calcinhas, dos soutiens, do belo vestido, de um espetacular par de sapatos, estamos mal. Porque estaremos completamente perdidas em relação ao que somos e ao que nos empodera. Aos valores que nos empoderam. Foi isso que respondi no ar, com toda a compreensão e gentileza que me foi possível. E elogiei a beleza das peças porque era real. Fecha o pano! rs

A beleza de peças delicadas, em belas cores e com perfeito acabamento agrega? Minha resposta é SIM. Mas pra mim elas funcionam como canela no mingau, chantilly num bom capuccino, cereja num delicioso bolo de chocolate, castanha picada sobre sorvete… Não representam a essência.

De que esfera do ser vem o desejo de “aperfeiçoar” o que já é bonito? O quanto ele é da pessoa que decide e o quanto é um “implante social” do qual estamos  reféns?

Deixo contigo, agora, a palavra.